quinta-feira, maio 25, 2006

Artigo de resposta à opinião do Pe. António Alves.

Desvarios de um Padre

«Diz o roto ao nú…»

“Doença: (1) Alteração ou desvio do estado fisiológico numa ou em várias partes do corpo. (2) Conjunto de fenómenos que se verificam num organismo que sofre a acção de uma causa mórbida e reage contra ela.” (Gispert, 2003, p.63 in Dicionário de Psicologia)

“Disfunção: Deterioração ou perturbação do funcionamento de um órgão, sistema de órgãos, comportamento ou cognição. (…) Disfunção sexual, perturbação do desejo sexual e das alterações psicofisiológicas que caracterizam o ciclo da resposta sexual.” (Gispert, 2003, p.67 in Dicionário de Psicologia)


Fomos presenteados por mais uma “pérola” opinativa pseudo-cientifica de uma figura clerical da nossa comunidade, no jornal “A União” do dia 10 de Maio. Esta “pérola” mistura opinião pessoal e religiosa com factos, alegadamente, cientificos, pois descreve a homossexualidade, não como uma doença ou patologia, mas antes como uma disfunção.

Tendo em conta as definições dos conceitos acima apresentados e clarificados, chegamos facilmente à verdade dos factos cientificos. Se assim fosse, não havia espaço para grandes teorizações religiosas camufladas de rigor cientifico (com ou sem hermeneutica). Porém, nota-se uma teimosia irracional, por parte, do Sr. Padre António Alves em considerar a homossexualidade como anormal. Aliás, é curioso e quase singular, o duplo sentido demonstrado no seu discurso. Ora, vai rotulando a homossexualidade como anormal, desestruturante ou como uma disfunção; ora condena atitudes de desprezo e discriminação.

O discurso evidenciado, conhecendo os factos cientificos, é da natureza mais discriminatória possível comparável ao discurso racista: “Gosto de negros como gosto de brancos. Tanto aperto a mão a um branco como o pescoço a um negro”. Por isso, quero crer que o Sr. Padre António Alves não sabe que a homossexualidade não é definida como doença, anormalidade ou disfunção pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Perturbações Mentais (DSM IV), nem pelo Classificação Internacional das Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CIE-10), nem mesmo pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Sr. Padre António Alves, as únicas finalidades da sexualidade humana são a propagação da espécie e a “necessidade profunda de complementaridade entre homem e mulher e, naturalmente, de uma vida em comum”? Então, e o prazer?

Sr. Padre António Alves, as situações fora destes “parâmetros” degradam a função? Mas a função é só reprodutora? Então, a complementaridade é de sexos ou é de pessoas? E, mais uma vez, o prazer? Degrada o prazer? O prazer incomoda-lhe?

Querer chegar ao conceito de naturalidade de uma construção social, o que me parece impossível, através de analogias com o orgânico, não será falacioso e um exercício de má-fé? Claro que não há má fé, tal como nas disfunções orgânicas, ninguém é culpado.

Sr. Padre António Alves, ninguém lhe permite definir a homossexualidade como doença, anormalidade ou mesmo disfunção, pois está a entrar no domínio da Saúde Mental, mais concretamente de disciplinas cientificas como a Psiquiatria, Psicologia, Sexologia, etc... Se, por outro lado, quiser considerar a homossexualidade um pecado. Então, terá todo o direito para o fazer, pois a hierarquia católica é a estrutura “expert” em definir o que é e o que não é pecado. Mas, por favor, não confunda doença, disfunção, anormalidade com pecado, pois estará a misturar “alhos com bugalhos”.

Será que é mais politicamente correcto, para a Igreja, rotular a homossexualidade ou os comportamentos homossexuais como doença, anormalidade, deficiência ou disfunção do que pecado? Ou será, que o conceito de pecado já não «pega»?

Se, mesmo assim, teimar em divulgar opiniões religiosas banhadas em cientificidade (com ou sem hermeneutica). Então, pergunto-lhe: Considera normal, segundo a sua opinião, a vida de um sacerdote? Uma pessoa que não propaga a espécie, que não procura a complementaridade com uma mulher ou com um homem e, que naturalmente, não tem uma vida em comum. Será que ser sacerdote é uma disfunção? Se, assim for, decerto que nem devia lhe ter respondido, pois estarei a desprezá-lo e a descriminá-lo. Se, a heterossexualidade é onde se dá a atracção normal. Qual o alvo da atracção dos sacerdotes? Será que podemos falar em «teossexualidade»? Delírio mistíco? Não sei, não sou teólogo. Mas tendo em conta o seu argumentário pseudo-científico tal comportamento deveria ser considerado uma disfunção.

Cidadão António Alves também considera exagero o querer exibir ou manifestar as suas atitudes e opiniões pseudo-cientificas, de modo a perpetuar uma falsidade?

Cidadão António Alves, o que pretendi com esta minha humilde exposição, foi dar razão à Razão, pois penso que qualquer pessoa (homossexual, bissexual ou heterossexual) tem direito à vivência feliz da sua sexualidade quer com pessoas do sexo oposto, quer com pessoas do mesmo sexo.

As atitudes e comportamentos de alguns membros da classe clerical na nossa sociedade regulam-se por protagonismos pseudo-cientificos, vistos de modo geral, como inocentes, mas que podem assumir-se como graves, pois o tempo do padre da aldeia que fazia de médico e de psicólogo por não haver melhor por perto já terminou. Por outro lado, penso, que também, seria triste, o dia, em que algumas classes profissionais viessem a desejar “ensinar o Pai-nosso ao vigário”. Mas essas são «contas de outro rosário»

Paulo Mendes
http://naomejulgues.blogspot.com
Será publicado, se me deixarem, nos jornais: "Diário Insular" e "A União"

2 Comments:

Blogger mega said...

excelente

10:47 da manhã  
Blogger vitche said...

Isto já são tantas destas que nem apetece comentar, discutir, clarear, ou outra acção qualquer que não seja do foro da violência.De preferência, fisica. Dá-me vontade (que com certeza dá a toda a gente que ainda lê estas 'opiniões') de dizer ao Senhor Padre que talvez fosse melhor a Igreja perder o seu tempo a melhorar-se a si própria. Sei lá, a não perder tanto tempo a encobrir pedofilias e outros abusos similares. Pois, já sei, já sei, boas e más pessoas há em todo o lado. Até nas profissões de fé. Senhor Padre, boas e más pessoas. Porque raio lhe há-de interessar ou perder o seu tempo a tecer considerações sobre os lugares onde essas pessoas metem a pilinha? ou outra coisa qualquer? Não o deveria preocupar muito mais as crianças que morrem de fome todos os minutos que passam? Já fez as contas?

11:42 da manhã  

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